Eu parti e continuarei partindo – Uma parte da minha história

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Após tanto tempo sem dar as caras por aqui eu resolvi retornar a esse deserto que se ainda pode ser considerado de blog está valendo muito. Brincadeiras à parte, agora é uma plena noite de Quarta Feira, me encontro dentro do meu quarto em uma noite chuvosa e cheio de coisa para fazer, mas fingindo que nada está acontecendo. Inclusive com um projeto para entregar amanhã, mas estou crendo na fé que vai dar tempo, apesar de já ser onze e dez da noite.

Enfim, desde o último post do meu blog, para ser mais exato, no dia 27 de agosto de 2018, que nem podemos considerar como um post né, já que é uma republicação de um vídeo meu no youtube. Hoje dia primeiro de maio de 2019, beirando aos seis meses, me senti novamente inspirado em escrever algo, mas algo sobre como anda a minha vida, um update de vez em quando faz bem né? vai que alguém se interesse.

Bom, eu posso dizer que o tempo é uma coisa muito louca e que as vezes alguns acontecimentos acabam surpreendendo a gente mesmo sem querer, se fizermos uma comparação linear sobre o meu último post no blog até isso que você está lendo no momento, eu já visitei quatro países diferentes, realizei meu sonho de conhecer a Disney, me mudei para Nova York, vi a neve pela primeira vez, falo inglês fluente, o meu círculo de amizade mudou e aumentou drasticamente, acrescentei mais dois cursos no meu currículo profissional, vivi experiência e conheci lugares inimagináveis… tudo isso acredite ou não em um período de seis meses.

É nessas horas que a gente começa acreditar que o tempo realmente é dinheiro, mas que no meu caso a gente substituí o dinheiro para “o tempo te dar as oportunidades, aproveita quem quer”. Cara, quando que há seis meses atrás eu imaginaria estar realizando tudo isso? É uma coisa que se eu tivesse colocado há algum tempo atrás como lista de objetivos a se cumprir em curto prazo eu me chamaria de louco, ou melhor, eu posso me considerar louco, porque é na loucura que a gente se encontra as vezes.

Há seis meses atrás eu decidi me jogar, sem medo, seguir em frente não olhar pra trás, sacrificar algo para um bem maior com a possibilidade de dar certo ou não. E eu posso responder que esse largar tudo foi o que me fez crescer como pessoa e me tornar maduro e venho me tornando a cada dia mais como ser humano, expandir os seus horizontes é preciso, o medo no novo, de arriscar, ele sempre existirá, mas se você não tentar quem vai tentar por você? É aqueles momentos que você tem a si mesmo e basta.

Semana passada me perguntaram, “Você se arrepende de algo?” eu apenas respondi que não, mas menti, porque se existe algo que me arrependo é de não ter tido medo de se arriscar antes. Eu fico me imaginando, se eu não tivesse saído da minha zona de conforto será que tudo isso aconteceria pela simples obra do destino? Não! Então se eu tenho um conselho para te dar nesse momento meu caro amigo é… Se tiver que partir, parta, isso vai machucar alguns, vai despertar saudades, vai criar muros, mas se você não busca os seus sonhos ninguém poderá buscar por você.

Uma coisa que venho percebido em algum tempo morando em outro país é, eu tenho recebido por direct no meu Instagram um misto de reações que me deixam confuso sobre qual é a verdadeira imagem que algumas pessoas tem de mim. Recebo pessoas me elogiando, dizendo que sou inspiração delas e que estão se espelhando em mim como modelo para saírem da sua zona de conforto, porém também recebo reações do tipo, “É fácil falar quando se tem dinheiro e fazer tudo isso que você faz”, bom nesse segundo caso é um discurso de realmente alguém que não me conhece.

Eu sempre enfatizei o fato de que, eu! este ser humano que aqui vos escreve, NUNCA na vida inteira foi alguém de uma família rica de grandes posses, ou melhor, nem de classe média no Brasil eu poderia ser considerado. Algo que eu nunca contei, mas que pessoas que estão na minha história de vida há muito tempo sabem é, eu fui um garoto que cresceu em favela, sim, durante dez anos da minha vida fui morador de favela. A nível de ver ações policiais cotidianas inclusive com uma certa vez chegando em casa de carro após meu pai me buscar na escola a polícia apontar uma metralhadora na cara dele questionando o que estavamos fazendo ali, mesmo sendo moradores do local.

Era recorrente a troca de tiros entre traficantes e policiais, cansava todos os dias de ver armas de diversos tipos e tamanhos. Também era comum eu ver usuários de drogas na porta da minha cara e horas depois ver a pessoa deixando o filho(a) na escola com o carro do ano e morando no condomínio mais luxuoso do bairro. Aquela era a minha realidade e tratava como tal, era algo impossível de mudar fora do alcance das mãos dos meus pais, pois quando você mora na favela, você não escolhe morar lá, você mora por necessidade, afinal, que tipo de pai que ver o seu filho crescendo frente a frente com a criminalidade embutida na sua realidade?

Meus pais sempre, eu não tenho do que reclamar, SEMPRE, se esforçaram para me dar o melhor mesmo nas piores condições possíveis. Eu recebia um tratamento tão diferente, ao meu ponto de vista naquela idade INJUSTA E RUIM mas não entendia o porquê, achava que meus pais me odiavam, mas na verdade eles sempre fizeram aquele escudo todo de me isolar muitas vezes de brincar na rua ou ir brincar com o amiguinho na casa do vizinho para simplesmente me proteger de algo que para eles era visível, mas que para os olhos de uma criança era ponto cego. Eu morava na favela, mas tinha poucos amigos por viver trancado dentro de casa.

Hoje eu tenho dados de “conhecidos” que morreram ou se perderam pelo tráfico de drogas, outros que estão presos ou que já foram presos e tentam se recolocar na sociedade. Se engana quem pensa é um número baixo isso. A vida na favela é uma realidade dura e impossível de escapar quando ela está no seu cotidiano. Eu gosto de relembrar dessa fase da minha vida porque faz eu refletir muito bem sobre de onde eu vim e que nunca posso me esquecer daquilo que me construiu como ser humano até hoje. Eu creio que cada momento/fase da minha vida contribuiu de uma forma para eu ser quem sou hoje e defender e acreditar em específicos ideais políticos e ideológicos.

Ser morador de favela, mesmo criança você consegue perceber alguns preconceitos mascarados e outros nem tanto. Minha mãe era diarista naquela época, era muito comum após a escola encontra-la para ir embora juntos já que a gente estava sempre na mesma região. Eu sempre fui muito educado quando ia esperar ela no serviço, eu entrava na casa, ela me colocava sentado em algum lugar lendo um gibi, esse era o meu passatempo preferido, já que não tínhamos internet. Vira e mexe, nessas casas que ela trabalhava tinham crianças, algumas da mesma idade que eu, as vezes eu até brincava com elas, outras a ordem era não brincar com eles porque o patrão(a) não quer, disfarçadamente um: “Não brinque com o filho da empregada”.

Lembro-me de ótimas patroas que minha mãe tinha, algumas até me mimavam, outras aparentemente só me suportavam mesmo porque minha mãe não tinha com quem me deixar. Lembro me bem de uma vez minha mãe trabalhando em uma casa no Tatuapé, eu deveria ter uns 11 ou 12 anos de idade, o menino que morava na casa chegou pra mim e me disse.

– Está vendo, esse é meu Playstation 3, meu pai me deu semana passada de aniversário, mas você não tem um desses, eu sei que não tem e nunca vai ter porque você não tem dinheiro.

Não lembro exatamente como foi a frase, mas foi um contexto parecido a esse, lembro-me de ficar sem resposta, calado e remoendo as fortes palavras na minha mente. Aquilo me marcou tanto e que toda vez que conquisto algo que se formos analisar por contexto social seria impossível pra mim, eu automaticamente lembro desse menino e dessa frase. Faço questão de saber sempre por onde ele anda, inclusive tenho-o no facebook, porque eu realmente não tive o Playstation 3, mas que estou fora do meu status quo.

Sem falar que depois quando você vem morar fora as pessoas que nunca se interessaram em saber de você vem te procurar, a cada ligação com minha mãe é uma surpresa:

– Rodrigo, lembra de fulano?… perguntou de você.

Inclusive algumas dessas pessoas que me destratavam quando criança ou mais jovem e delas eu só quero uma coisa… DISTÂNCIA.

Sobre a minha vida, bom, ainda tenho muito o que fazer, muito o que conquistar, mas a cada pequeno passo que eu dou eu comemoro e celebro como se eu tivesse realizado o sonho master da minha vida. Me arrisco a dizer que estou vivendo uma das melhores fases dela com apenas 23 anos. Aqui eu me despeço com um pequeno desabafo/trecho da minha história com muitas vertentes e espero ter inspirado vocês. Até mais, só espero esse “até mais” não seja para daqui a 6 meses. Haha

“Se você está em casa, no seu sofá, assistindo a isso, tudo o que eu tenho a dizer é que esse é um trabalho duro. Eu trabalhei duro por muito tempo para chegar até aqui. Não é sobre ganhar, é sobre não desistir. Se você tem um sonho, lute por ele. Existe uma disciplina. Não é sobre quantas vezes você foi rejeitado, caiu e teve que levantar. É quantas vezes você fica em pé, levanta a cabeça e segue em frente.” – Lady Gaga

Até mais! <3

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